Índice

 

          Introdução.

Parte I

1 - Apresentação e justificação do objecto de Estudo

a)       Objectivos Gerais do Trabalho

b)      Objectivos Específicos do trabalho

2 - Cultura e Identidade

3 - Contextualização Histórica do Tema

3.1 - As Ilhas de cabo verde, um Breve Historial

3.2 – Identidade Cultural Cabo-verdiana

3.2.1 – Principais Manifestações Culturais dos ilhéus

3.2.2 - A formação do Crioulo: Uma breve Noção

 

Parte II

1 - O Crioulo Como a Marca da Identidade Cabo-verdiana

1.2 – Poesia e Língua Crioula. Realidades que se Cruzam

2.1 – O Papel da Poesia na Denuncia do Drama do Povo das ilhas

2.1.2 – Os temas da Poesia Cabo-verdiana na Década de 30

Conclusão

 

 

 

 

 

 

Introdução

O trabalho a que nos propomos apresentar no âmbito da disciplina “Cultura Portuguesa” tem como o objectivo geral de análise a Identidade Sociocultural cabo-verdiana. Por se tratar de um tema vasto e complexo traçamos como objectivo específico de análise a língua crioula, tendo como pano de fundo a Poesia.

Esta nossa opção tem a ver com o facto do crioulo ser uma das manifestações culturais mais importantes; vinculo de comunicação e de identidade nacional e também porque foi na década de 30 do século XX que os intelectuais cabo-verdianos começaram a recorrer com mais afinco ao uso da língua materna nos seus trabalhos rompendo assim com a tradição. Pois Cabo-verde era na altura a colónia portuguesa e por isso mesmo, o crioulo era constantemente reprimido pelas autoridades coloniais e deste modo o seu uso era quase residual. Portanto com a publicação da revista Claridade, surgiu o movimento cultural chamado claridade que passa a privilegiar os valores cabo-verdianos demarcando-se da cultura do colonizador.

Estamos a falar de valorização de uma cultura que na altura teria quase 500 anos de existência, mas que devido à política colonial não se podia expressar livremente.

Nas aulas de “Cultura Portuguesa, ficou acentuado a ideia segundo a qual não existe um único tipo de cultura mas sim, há diversas formas de manifestações culturais. Cada povo, cada sociedade ou comunidade possui a sua forma de ser, estar, e sentir.

Se assim é, o povo das ilhas de cabo verde possuem uma identidade cultural própria, e por isso mesmo, ao longo da nossa exposição procuraremos referenciar os principais códigos e manifestações culturais que os caracterizam.

Para o nosso estudo optamos por uma metodologia simples: Por um lado, tivemos em consideração aos conceitos teóricos abordados nas aulas e por outro, a análise bibliográfica e pesquisas de documentos. Ao longo do nosso trabalho de pesquisa encontramos imenso material e como não podia deixar de ser tivemos que afunilar o nosso tema assim como seleccionar as referencias bibliográficas mais importantes.

       Será uma apresentação de índole crítica, onde a confrontação de ideias acerca do tema em questão faz se á recorrendo à poesia cabo-verdiana. Quer isto dizer que procuraremos apresentar os temas fundamentais da poesia cabo-verdiana recorrendo principalmente à primeira geração dos poetas cabo-verdianos na medida em que na minha opinião, estes são os grandes sistematizadores da cultura cabo-verdiana.

Ao longo desta reflexão, pretenderemos utilizar a noção de identidade cultural, como modalidade do próprio processo social e histórico. Toda e qualquer cultura, independentemente do espaço ou tempo, gera identidade onde se cria e se recria configurações e representações culturais. São processos de longa duração úteis para a identificação de pessoas e grupos sociais.[1]

O trabalho vai dividido em duas partes que de uma forma sucinta passamos a descrever. Após uma breve introdução, na primeira parte, procuramos sistematizar teoricamente o nosso trabalho afim de conseguirmos o melhor rigor possível. Como sabemos, os aspectos teóricos são a essência de qualquer trabalho de investigação que se faça.

Num outro ponto, procurámos contextualizar historicamente o tema em questão bem como fazer uma breve alusão acerca do surgimento do crioulo num outro ponto seguinte. Na verdade, é de todo o interesse quando se fala acerca de um determinado pais, falar um pouco da sua história, e cultura nomeadamente.

Ainda, tivemos a oportunidade de abordar as principais manifestações culturais dos ilhéus. Na parte II, estávamos em condições para abordar o tema mais em concreto. O primeiro ponto da segunda parte ficou intitula-se: Crioulo Como a Marca da Identidade Cabo-verdiana, enquanto, o segundo chamamos-lhe de “Poesia e Língua Crioula: Realidades que se Cruzam”. Para terminar, como não podia deixar de ser abordamos os poemas escritos em crioulo focalizando a nossa atenção nos principais temas.

 

 

 

2 - Cultura e Identidade

 Não podemos falar da identidade cultural Cabo-verdiana, sem fazer uma breve análise dos conceitos de identidade, e cultura. O significado que hoje se dá, e sobretudo que as ciências sociais dão à questão das identidades culturais difere do passado. A abordagem que se fazia da identidade cultural, era muitas vezes de cariz “etnocéntrica”.O Professor Custódio Gonçalves salienta, a este propósito, que ”identificar culturalmente era, no passado, situar uma cultura numa hierarquia classificativa que geralmente decorria da valorização da noção de civilização sobre a da cultura”[2] (está aqui subjacente a ideia da evolução do saber, do pensamento científico e do progresso).

Actualmente, as ciências sociais têm vindo a introduzir novos modelos de análise, assim como a diversificação dos temas sobre este assunto. Para Custódio Gonçalves, isto significa que estas ciências “descobriram as Identidades e especializaram mesmo uma generosa colecção de objectos como estruturas identitários, sistemas identitários (...) porém, ele chama ainda a atenção de que “em muitos casos continua a utilizar-se a noção de identidade verdadeiramente para continuar a identificar” [3]

O conceito de identidade cultural definido por Custódio Gonçalves é importante para a nossa análise se atendermos ao facto de ele afirmar que as identidades culturais “não são rígidas nem imutáveis: são sempre processos de identificação; no tempo e num espaço próprio, constituindo uma sucessão de configurações e representações que, de época para época dão corpo e vida a tais identidades como auto-criação constantes”[4]

A identidade de cada um é aquilo que nos diferencia dos outros. É aquilo que vai sendo construído passo a passo e vai-se transformando ao longo da existência. As identidades emergem dos processos interactivos que os indivíduos experimentam na sua realidade quotidiana, em trocas reais e simbólicas entre os que estão classificados em grupos, separados por fronteiras que as situações sociais ditam.

A construção de identidades decorre no quadro das relações de poder que diferenciam dominantes e dominados, maioria e minoria, quer se trate de poder económico, político ou simbólico, desenvolvendo – se diferentes estratégias face às desigualdades.

A cultura será um conceito central na nossa analise, dado que ela reflecte não só o tipicismo de um povo, mas também a evolução, comportamentos, costumes e tradições. Porém, antes de abordamos a cultura cabo-verdiana propriamente dita, vamos fazer uma breve alusão em torno do conceito.

Tylor, desenvolveu a sua concepção antropológica da cultura: todo o complexo que inclui o conhecimento, a ciência, a arte, a moral, o direito, o costume, e qualquer outra capacidade e hábitos adequados pelo homem como membro de uma sociedade. Ambas as definições acabaram por se cristalizar sendo, que a primeira tem servido de modelo às faculdades de letras, pressupondo que as manifestações culturais são formas muito vulneráveis da actividade humana, e que como tal merecem ser protegidos, ao passo que a segunda vai acabar por dominar nas ciências sociais, principalmente na antropologia.

Guy Rocher, inspirando em Tylor, apresenta-nos uma noção sociológica da cultura, “como um conjunto ligado de maneiras de pensar, sentir e agir, mais ou menos formalizadas que sendo apreendidas e partilhadas por uma pluralidade de pessoas, servem de uma maneira objectiva e simbólica para organizar essas pessoas numa colectividade particular e distinta. Quando o autor se refere a maneira de pensar, sentir e agir está a fazer referência a símbolos, valores e modelos”[5].

Serão esses conjuntos de pressupostos teóricos que orientarão a nossa análise conforme veremos mais à frente. A nossa visão de cultura é global e multifacetada e plural.

 

 

3 - Contextualização Histórica do Tema.

3.1 - As ilhas de cabo verde, um breve historial

 

      Situadas no Oceano Atlântico, a 455 Km da costa Ocidental Africana, as ilhas Cabo-verdianas eram desabitadas, aquando do seu achamento pelos Navegadores portugueses no ano de 1460. Foi a partir desta data que se formou a sociedade Cabo-verdiana, ou seja, o início do percurso histórico do arquipélago.

Ilhas desertas, tornaram-se rapidamente um espaço habitado e com o decorrer da ocupação territorial deu-se nas ilhas o processo de miscegenação, o encontro de dois povos e de duas culturas diferentes, de proveniências várias, nomeadamente de Portugal e de vários pontos de África (estes últimos em maior número).

A vida dos homens no arquipélago nunca foi fácil e foram autênticos homens duros com vidas duras. A escassez da chuva e a ausência de riquezas minerais e vegetais tornaram árdua a vida dos ilhéus. Aos problemas de ordem natural junta-se a perda da importância estratégica do País face as mudanças nas rotas do comércio internacional,

forçando e impelindo os cabo-verdianos desde cedo a emigrarem ou a encontrarem novas alternativas.

Podemos assim dizer que esta luta contra a natureza e pela sobrevivência foi uma das razões de formação duma consciência colectiva[6] e que aliás, contribuiu para que cabo-verde se constituísse desde cedo uma nação.

Apesar do maior controlo exercido, que se traduziu no condicionamento da liberdade de imprensa, o Estado Novo não conseguiu travar o processo de afirmação da Caboverdianidade.

 O processo de evolução sociocultural ocorrido no arquipélago dá-nos conta de estar-se perante uma sociedade que se exprimiu nas mais diversas formas e que a partir da década de 30 manifestou-se de uma forma original a sua identidade. Foi precisamente nessa época que através da literatura e da música a especificidade da Caboverdianidade começou a evidenciar e a demarcar-se da cultura do colonizador.

Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes deram um grande contributo na afirmação da identidade cabo-verdiana, na medida em que houve na altura uma “denúncia cultural do colonizado frente ao colonizador, cuja prática política foi o reforçar e afirmação da identidade do outro mediante a imposição da sua própria identidade”[7] A escrita em crioulo constituiu uma forma de reforçar a autonomia cabo-verdiana e a afirmação de uma identidade nacional. Assim, o primeiro número da revista Claridade traz a transcrição de dois motivos de “Finaçon e Batuque” uma manifestação tipicamente cabo-verdiana. A afirmação da identidade nacional cabo-verdiana mais tarde acabaria por ter expressão política. Assim, com o derrube do regime autoritário em Portugal a 25 de Abril de 1974, a consciência nacional cabo-verdiana finalmente pôde exprimir-se livremente. O 25 de Abril e a Independência constituíram factos marcantes para o renascimento da cultura cabo-verdiana, “um momento de ruptura e início da construção de um espaço social nacional.”[8]

A partir deste período, as diferentes manifestações culturais do País (a Tabanca, o Funáná etc.) até então alvos de perseguições por parte da Igreja Católica e pelas Autoridades Coloniais, começaram a manifestar-se sem serem importunadas. Tratou-se de certa forma de um regresso ao passado, para reclamar a identidade perdida. O Povo das ilhas se apercebeu de que as suas raízes não estavam apenas na Europa, assumindo também a sua herança africana.

A independência levou e propiciou as autoridades a tomarem claramente partido de África na discussão em torno da identidade cabo-verdiana, já que a própria luta conduzida pelo partido africana para a independência de Guiné e Cabo Verde (PAIGC) se tinha desenvolvido no contexto da emancipação do Continente. No dizer de Dulce Duarte, no pós independência as pessoas interessavam-se não só pela cultura material mas também espiritual.[9]

 

 3.2 – Identidade Cultural Cabo-verdiana

 

Numa simbiose entre africanos e europeus, originou o actual homem cabo-verdiano que num ambiente marcado pela insularidade e pela seca originou uma nação com uma identidade cultural própria, apoiada numa língua, hábitos e costumes que diferenciam o cabo-verdiano tanto do povo colonizador como das culturas vizinhas da costa central africana.[10]

A existência da identidade cabo-verdiana é tão antiga como o início do percurso histórico do seu Povo. Ela formou-se ao longo do século num território sem história e cedo tornou-se numa Nação que antecipou a constituição do Estado.

Segundo Carlos Proença, “Cabo verde é uma nação com uma história de 500 anos e com a formação da sua identidade colectiva. Este autor considera que não existe uma procura (construção de uma identidade) apenas no Século XX, mas sim, trata-se de um processo que se iniciou com a descoberta e povoamento das ilhas e sempre teve características próprias”[11].

 Esta construção não foi estática ou seja, amadureceu e evoluiu passo a passo, ao ponto de na época pós colonial a afirmação da sua identidade foi expressada de uma forma menos ambígua e mais clara. Esta expressão nata notava-se a seguir a independência com maior intensidade.

Falando mais em concreto de algumas manifestações culturais dos Ilhéus, a língua crioula é por excelência a marca da identidade Cabo-verdiana.

 A par do Crioulo, o batuque, os ritmos e cantares da tabanca, bem como a morna são os principais códigos de produção das imagens predominantes no interior da sociedade cabo-verdiana e vinculadas para o exterior. Não podemos esquecer também o papel da Literatura e da gastronomia; a famosa “Cachupa”.

Em Cabo-Verde, ao contrário da Guiné-Bissau[12], a tabanca surgiu como uma manifestação cultural. No entanto esta manifestação cultural bem como o batuque estão a perder de ano para ano as suas forças. O batuque, a manifestação cultural mais antiga do arquipélago, tinha uma função social, mas actualmente constitui um simples lazer. O batuque que se faz desde a independência não é o batuque na sua forma original.

 

Recordamos que a identidade cultural não é algo estanque, não há essência na identidade cultural visto que pode ter um determinado aspecto num certo período e um outro aspecto no período seguinte.

Outra faceta com a qual se identifica um cabo-verdiano é através do Funaná, género musical tradicional de Santiago. Hoje é, juntamente com a morna, um género musical nacional. A Morna é, segundo os Poetas cabo-verdianos, “a expressão da alma do povo cabo-verdiano, hino de amor, ilusão e melancolia que em ritmo polariza a alma cabo-verdiana”[13]. Para Nuno Miranda, o principal motor da conduta e do pensar crioulos “reside na sua Morabeza, que o leva a um convívio familiar com as pessoas e até com as coisas que lhe solicita uma ânsia irreprimível de diálogo”.[14]

A par destes principais formas de manifestações culturais que identificam o cabo-verdiano podemos encontrar na literatura a expressão máxima da caboverdianidade.

As dificuldades que o Cabo-verdiano sente dada a ausência cíclica da Chuva geradora de fome e consequentemente, da emigração dominam toda a poesia.

Criou-se assim um sentimento do homem cabo-verdiano cujo o desejo principal é a esperança de partida. Ou ainda, a vontade de partir e ter que ficar ou querer ficar e ter que partir.

Encontramos na poesia cabo-verdiana a existência de dois ritmos que polarizam as grandes linhas de força da vida colectiva. Por um lado, o ritmo telúrico da vida ligada à terra, e por outro o ritmo pelágico das eternas partidas e dos eternos regressos.

Outros poemas exprimem, em contrapartida, a esperança que venha chuva, e outros ainda entoam o cântico exultante do povo depois da chuva que ganhou uma dimensão cultural quando todo arquipélago entrevê um ano de abundância que fará recuar por muito tempo o espectro da fome. A hora da partida (hora di bai) “representa no complexo psicológico dos cabo-verdianos um sentimento colectivo: o sentimento de que a emigração constitui a única solução válida para os problemas sócio-económicos”.[15]

 

 

3.2.1 – Principais Manifestações Culturais dos ilhéus.

 

         Ficou dito anteriormente que a cultura manifesta-se de forma diversa de lugar para lugar, determinada por factores geográficos, climatéricos e ainda se quisermos factores sócio – económicos. Entretanto importa dizer-se que, a cultura e identidade não são rígidas nem imutáveis, mas sim processos de identificação, no tempo e num espaço próprio que de época para época dão corpo e vida às identidades dos indivíduos. Quer isto dizer que a cultura reflecte não só o tipicismo de um povo, mas também a evolução, dos comportamentos, costumes e tradições.

 Cabo verde não foge à regra, e por isso mesmo encontramos um povo com uma cultura própria, dinâmica, moldada pelo quotidiano e pela insularidade. O quadro que se segue serve apenas para ilustrar e termos a ideia das características culturais especificas dos cabo-verdianos.

 

 

 

MANIFESTAÇÕES CULTURAIS DOS ILHÉUS

 

 

Língua

Dança

Música

Cozinha Crioula

Literatura cabo-verdiana

 

Artesanato

Crioula

Poesia:

Principais

Temas?

Funáná

Coladeira

Mazurca

Morna

 

Cachupa

Rolão

Pirão

Cúscús

Caldo de peixe

Chuva Brava

Chiquinho

 

Trabalhos em Cocos

Bordados

Tecelagem

 

 

          

 

3.2.3 A Formação do Crioulo: Uma breve Noção.

 

Antes de mais convém salientar que para este título não é a nossa intenção fazer uma análise profunda. Queremos sim, apenas para situarmos o nosso tema dar-vos uma pequena ideia acerca do mesmo.

O povoamento das ilhas foi feito recorrendo aos povos proveniente de Portugal e de vários pontos de África. A grande questão que se coloca de forma subjacente é saber nomeadamente como, e a partir de que momento histórico, se formou a língua crioula, marca da identidade cabo-verdiana. 

Para Carlos Proensa, cabo verde é uma nação com uma história de 500 anos. Se assim é, podemos afirmar que o Homem cabo-verdiano assim como a língua crioula coexistiram sempre lado a lado. Assim sendo, e ainda na linha do pensamento do autor acima citado, considera que, não existe uma procura de identidade Cabo-verdiana apenas no século XX, mas sim, trata-se de um processo que se iniciou com a descoberta e povoamento das ilhas e sempre teve características próprias.

Agora, uma outra questão se impõe: Se as ilhas foram povoadas com populações provenientes de duas culturas diferentes como é que surgiu o crioulo? Para esta nossa pergunta podemos recorrer por exemplo aos estudos do Lopes de Lima. No seu livro intitulado “Ensaios Sobre a Estatística das Possessões Portuguesas do Ultramar”, escreve a propósito do crioulo cabo-verdiano o seguinte. “No início, para a orientação da actividade religiosa e económica os brancos e os negros tinham de se entender falando.

O branco falava em português mas, como não podia deixar de ser, devido a falta da cultura e ausência de aulas de português, onde lhe ensinasse a língua portuguesa, o negro alterava quando ouvia e o branco que não se preocupava nem podia preocupar-se com a gramática, mas apenas com o bom êxito da sua missão, aceitava o que ouvia e para que fosse ouvido repetia.

E deste modo deu se o inevitável: Nasceu o crioulo”. Apesar da política de assimilação praticada pela autoridade coloniais, no sentido de manter a supremacia da cultura portuguesa, isto nunca foi possível. Com o decorrer dos tempos, ilhéus, não falavam outra linguagem. O título meramente indicativo, rezavam em crioulo e até os párocos lhes explicam a doutrina em crioulo. O crioulo é hoje a língua nacional a marca da identidade cabo-verdiana. Está presente em quase todas as manifestações sócio-culturais.

 

 

Parte II

 

1 - O Crioulo Como a Marca da Identidade Cabo-verdiana.

1.2 – Poesia e Língua Crioula. Realidades que se Cruzam

 

Se o crioulo é uma das manifestações culturais mais importante, o denominador comum, vínculo de pertença e da identidade nacional escolhi para a minha apresentação a sua incidência na literatura ou seja na poesia.

Ao escolher a poesia a minha intenção é procurar responder a seguinte questão: Quais são os temas fundamentais da poesia cabo-verdiana? Para responder a minha pergunta fui pesquisar algumas obras acerca do assunto e escolhi alguns poetas cabo-verdianos nomeadamente Jorge Barbosa, Manuel Lopes, Nuno Miranda, Manuel Bandeira, Corsino de Azevedo, António Nunes, Gabriel Mariano, são na verdade exemplo indubitável da faceta do homem cabo-verdiano. Pois estes são na minha opinião os principais

sistematizadores da cultura cabo-verdiana. São os chamados “Claridosos”, que a partir do ano 1936 romperam com a Metrópole centralizando-se os seus trabalhos nas preocupações do homem crioulo.                   

             Nos últimos anos é notório o esforço para a sua utilização para a sua utilização cada vez mais ampla. Tomamos com exemplo a sua utilização na poesia. A poesia é transposição directa das realidades vividas no quotidiano, problemas que afectam o colectivo (pois todos os poetas evocam factos modestos). As constantes da poesia cabo-verdiana derivam do condicionamento geo-humano e os seus elementos podem enunciar-se de seguinte modo:

           A inquietação (provocada pela instabilidade económica do arquipélago devida especialmente ao regime das chuvas).


 

3.2.1 – Principais Manifestações Culturais dos ilhéus.

3.2.2 - A formação do Crioulo: Uma breve Noção

 

     Ficou dito anteriormente que a cultura manifesta-se de forma diversa de lugar para lugar, determinada por factores geográficos, climatéricos , etc. poeta começa por lutar contra o isolamento forçado que fez muito naturalmente do mar uma rota de esperança raramente satisfeita. 

     Para os poetas da época, o cabo-verdiano é um ser inquieto sempre atormentado pelo desejo e pela esperança da partida.Afirmam que, o homem é um ser de fome. A opressão que cabo-verdiano sente ao contacto com a terra árida, desolada durante longos e intensos períodos de seca geradores de fome domina toda a poesia local.

       No vértice a pirâmide social, os poetas fazem – se assim, eco de um povo que protesta contra o condicionamento geo-económico do arquipélago, que nenhuma intervenção técnica eficaz melhorou. É por isso que grande número de poemas canta o drama do povo perante a seca. A hora da partida representa no complexo psicológico do homem cabo-verdiano um sentimento colectivo: o sentimento de que a emigração constitui a única solução válida para os problemas económicos.

Resumindo e concluindo o quadro em baixo dá-nos um resumo dos temas gerias abordados nos poemas, um retrato fiel das vivências e cultura do povo das ilhas.

 

 

POETAS

- Poetas da 1ª Geração – Claridosos – (1936)

Gabriel Mariano

Jorge Barbosa

Baltazar Lopes

 

Nuno Miranda

 

Corsino de Azevedo

Principais Temas

Em crioulo....                                        Em português...

Fomi

 

 

       Ou        

Fome

Seca

Seca

Tchuba

Chuva

Hora di bai/ sodadi

Hora de Partida/ Saudade

Desejo de Parti

Desejo de Evasão

 

Poemas

 

NÔS É FLAGELADOS DI BENTU LESTI/ NÓS SOMOS FLAGFELADOS DO VENTO LESTE

“Nós somos os flagelados do

Vento Leste!

 

A nosso favor

Não houve campanhas de solidariedade

Não se abriram os lares para nos abrigar

E não houve braços estendidos fraternalmente

Para nós

Somos os flagelados do Vento de leste...”

 

“...ilhas perdidas

no meio do mar

esquecidas num canto do mundo

que as ondas embalam

maltratam

abraçam...”

 

 

 

“Nôs é flageladus di

bento  lesti

 

Pa nôs lado

ca obi campanha de solidariadadi

ca abri ninhum porta pa abrigano

E ca obi braço stendido fraternalmenti

 

Pa nôs

Nôs é flageladus di bento di lesti”

 

 “… Ilha perdido

na mé di mar

Squecido na cantu di mundu

qui onda embala

maltrata

abraça…”

 

(Ovídio Martins)

 

 

 

HORA DI BAI/ HORA DE PARTIDA

 “...caminho longe

caminho obrigado

caminho trilhado

nos traços da fome

caminho sem nome

caminho do mar

um violão a chorar

caminho traidor...”

“… caminho longi

caminho obrigado

caminho trilhado

na traço di fomi

caminho sem nomi

caminho de mar

um violon ta cthora

caminho traidor…”   

 

 

Conclusão

 

  À guia de conclusão, resta-nos dizer que, procuramos ao longo da nossa exposição abordar a problemática da cultura cabo-verdiana. Esta análise foi sendo feita tomando como objectivo específico a língua crioula na medida em que, em nossa opinião o crioulo é a marca da identidade cabo-verdiana. Na sociedade cabo-verdiana a par da língua oficial ser o português, o crioulo funciona como o denominador comum e vínculo de pertença. O português é sempre uma segunda língua. Fala – se crioulo em casa, no trabalho, e até por vezes, na sala de aula.

          Como não poderia deixar de ser, este trabalho requer uma sustentação teórica. Daí que a nossa primeira preocupação foi esclarecermos embora que breve, o que significa identidade cultural. Não seria de mais voltarmos a afirmar que, ao longo de toda a nossa exposição tivemos uma noção global do conceito “cultura”, que é diverso, plural, e se manifesta independentemente da classe sócio-económico ou da área geográfica a que pertencem os indivíduos. São por isso, maneiras de pensar, sentir, e agir de uma comunidade, povo ou nação.

         Posto isto, estávamos em condições para falarmos acerca da identidade cultural cabo-verdiana ou ainda se quisermos, a língua crioula.

         Num primeiro momento da nossa análise fizemos um breve apanhado acerca da formação da identidade cultural cabo-verdiana permitindo-nos assim, identificar e referenciar as primeiras manifestações culturais dos ilhéus como por exemplo, ligadas a música, dança e gastronomia.

          Posteriormente, em consonância com o nosso tema, abordamos a língua crioula. Procuramos ser o mais restrito possível, delimitando assim a nossa escala de análise: O nosso objectivo foi centralizar na literatura escrita em crioulo, partindo dos temas fundamentais que retratam as vivências, e realidades genuinamente cabo-verdianas. A partir das diversas manifestações culturais que identificam o cabo-verdiano encontram na literatura a expressão máxima da caboverdianidade.

       Poetas com Jorge Barbosa, Gabriel Mariano, Manuel Lopes, Nuno Miranda quebraram a partir da década de 30 do século xx, coma tradição. Ou seja, a partir daí é notório o esforço para a utilização do crioulo, nas produções literárias. Centralizaram os seus trabalhos nas preocupações do homem crioulo, demarcando se da cultura do colonizador. De forma suscita podemos afirmar que as constantes da poesia cabo-verdiana derivam do condicionamento geo – humano e os seus elementos podem enunciar-se do seguinte modo: A inquietação (provocada pela instabilidade económica do arquipélago devida especialmente ao regime das chuvas), a seca, a fome, o desejo de evasão, “a hora di bai” (a hora da partida), a saudade etc.

       

        Com estes temas e poetas que já referimos podemos dizer que começou a haver um importante substrato dialectal popular que estimulou a produção literária. A título meramente indicativo terminamos deixando alguns autores que se destacaram nas produções literárias dialeticais temos por tanto Pedro Cardoso com a obra intitulada folclore (folclore cabo-verdiano, José Alfama que publicou Canções Crioulas salienta – se ainda Eugénio Tavares, Mornas Crioulas Gabriel Mariano, “Kaoberdiano Bambará”. .          

 

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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LOPES, José Vicente – Cabo Verde: Os Bastidores da Independência, Instituto Camões, Centro Cultural Português Praia/ Mindelo 1996

 

 

 

 

 


 

[1] GONÇALVES, António Custódio - Identidades Culturais e Emergência do Nacionalismo Angolano p2

[2] GONÇALVES, António Custódio - Identidades Culturais e Emergência do Nacionalismo Angolano(c. 1885-c.1930) p 1-2

[3] GONÇALVES, António Custódio, ibedem p3

[4] GONÇALVES, António Custódio – Ibidem. P 2-3

[5] ROCHER Guy – Sociologia Geral V 1

[6] Segundo Durkheim, a consciência colectiva é formada pelo conjunto de maneiras de agir, de pensar e de sentir que compõem a herança comum de uma sociedade. (Vidé Guy Rocher-  Sociologia Geral vol II p 26)

[7] FURTADO, Cláudio Alves – Génese e (Re) Produção da Classe Dirigente em Cabo Verde, p 74

[8] FURTADO, Cláudio, Ibidem p 69

[9] LOPES, José Vicente – Cabo Verde. Os Bastidores da Independência p. 582

[10] SEMEDO, José Maria- Descoberta das Ilhas de Cabo-verde p 27

[11] PROENSA, Carlos Sangreman: a Política Económica e Social em Cabo Verde

 

[12] Na Guiné – Bissau significa agrupamento populacional (Cabana)

[13] FILIPE, Carlos – Descoberta das Ilhas de Cabo-verde, p196

[14] MIRANDA, Nuno – Compreensão de cabo-verde, p 62

[15] MAGARIDO, Alfredo- Estudos sobre Literaturas das Nações Africanas de Língua Portuguesa pp.43-45